A tentação da ação
A vida prática sempre me pareceu o menos cômodo dos suicídios. Agir foi sempre para mim a condenação violenta do sonho injustamente condenado. Ter influência no mundo exterior, alterar coisas, transpor entes, influir em gente — tudo isto pareceu-me sempre de uma substância mais nebulosa que a dos meus devaneios. A futilidade imanente de todas as formas da ação foi, desde a minha infância, uma das medidas mais queridas do meu desapego até de mim. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego”)
Poucos ditados populares encontrariam tanto reforço nas mais elevadas e complexas teologias como o que diz que “de boas intenções o Inferno está cheio”. A nossa incompreensão dos intrincados mecanismos das coisas do mundo e até das sociedades nos faz tantas e tantas vezes agir de forma desastrosa até quando a intenção é fazer algo positivo. Talvez sabedoras disto as mais antigas e sólidas tradições religiosas tenham consagrado como o seu ideal de santo aquele que nada faz, só fica parado em contemplação e justificando assim a existência do mundo, tal como os grandes santos hindus, budistas, cristãos e alguns sheikhs sufis.
No seu sentido tradicional a única forma de se evitar o Karma – tem tem muito pouco a ver com estas noções popularizadas por aí para consumo dos superficiais – é a não-ação. Qualquer ação gerará Karma, produzirá efeitos negativos que mesmo sendo feitos involuntariamente aumentarão a nossa dívida, porque eles dependem exclusivamente dos resultados, não das intenções que tínhamos aos executá-los (nem falo aqui das intenções falsas, hipócritas ou racionalizadas, só das intenções que realmente eram boas). Toda ação parte, nestas doutrinas, no fundo de um orgulho do homem que considera-se capaz de compreender o mundo e interferir nele. Só são louvados, portanto, entre os os que agem aqueles no extremo da santidade, porque no caso quem age não é o próprio, mas a divindade que age através dele.
Para os homens normais, não agraciados com a benção da santidade, a tentação da ação é sempre grande demais e neste ponto as teologias se complicam. Acho que a única boa perspectiva que já vi sobre isto é a de um guru hindu que recomenda que se passe pelas ações da vida com empenho nas tarefas mas desapego a elas e as cosias do mundo, tal como uma boa babá cuidaria de forma adequada de uma criança mas não se apegaria a ela quando o serviço estivesse terminado. Em muitos sentidos seria este o ideal de viver como um profissional. De forma mais literária é o mesmo que Pessoa diz quando fala de seu trabalho com o Patrão Vasquez. De minha parte, mais fraco que Pessoa, não seria capaz de uma vida profissional sob um patrão Vasques.
Toda esta teologia tem uma profundidade que até consigo vislumbrar e quase me convence, mas não me sinto escapar a roda das ações, sinto-me empurrado pelo destino a ela e não só as pequenas ações cotidianas, nem mesmo as grandes decisões pessoais, mas mesmo às grandes decisões sociais e políticas nas quais ainda que modestamente sou impulsionado sempre a interferir.
Por mais que uma das minhas passagens preferidas do inquietante livro de Pessoa que cito na epígrafe seja:
Revolucionário ou reformador — o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador,
é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e reta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
E certamente em nenhum campo a tentação da ação é tão grande e tão perigosa como nesta da política. Em tão poucos outros lugares – porque aqui se trata de lidar com aquilo que é de todos e para todos – ela é tão capaz de produzir resultados desastrosos mesmo quando se tem a melhor das intenções, assim como é tão possível perder-se em labirintos tortuosos de estratégias e táticas e acabar fazendo o contrário do que realmente se deseja. Até por isso considero leitura obrigatória e recomendo a todos os jovens que sentem a vocação da política neles que leiam “A Eminência Parda” de Huxley, terrível retrato do que a noção de que os meios justificam os fuins pode levar quando se é envolvido pelas “necessidades táticas”.
Por outro lado a situação política no Brasil e no Mundo é tal, tão nivelada por baixo se encontra, que a existência ainda de pessoas que erram tendo vontade de acertar é incapaz de provocar dano maior do que aqueles que erram porque querem errar mesmo. Talvez isto apreça uma racionalização e talvez até seja, mas lá estou eu sempre arrastado ao olho do furacão mesmo sem fazer nada para isto, não posso interpretar isto senão como um sinal de bom alvitre.
