Ainda sobre Almodóvar, mulheres e homens
Fale com ela: Rosário Flores e Pedro Almodóvar durante as filmagens de “Fale com Ela” (2002). www.imdb.com
Um dos comentários que fiz no texto anterior, sobre o filme “Volver”, é que ao mesmo tempo em que ele destaca certa diferença de percepção masculina e feminina, o próprio fato dele ser um homem realizando filmes “de sensibilidade feminina” e que tem esmagadora maioria de seu público composto por mulheres é uma negação se não da diferença ao menos de que ela tenha a amplitude toda que faz parecer. Evidente que há algo de estilizado, portanto caricato como disse ontem, mas os aplausos do público feminino, por sua vez, também estabelecem certa contradição com esta idéia do caricato.
No filme considerado “masculino” de Almodóvar, “Fale com ela”, é evidente certa inversão de papéis, com uma mulher em um papel de toureiro que mais do que masculino é considerado até certo “símbolo” de virilidade D.H. Lawrence no primeiro capítulo de “A Serpente Emplumada” é dos poucos que mostra a tourada como uma farsa cruel e covarde. enquanto mostra um homem em um papel de enfermeiro também não só usualmente exercido por mulheres, mas também carregado de certa “simbologia” feminina.
O Macaco Nú: Capa do livro de Desmond Morris no qual ele tenta analisar e explicar alguns comportamentos humanos a partir de um ponto de vista estritamente zoológico.
Evidente que há diferenças significativas entre homens e mulheres quanto a diversos aspectos psicológicos. Contudo parece ser claro – e talvez por isto Almodóvar seja capaz de superar boa parte das contradições “caricatas” – que uma grande parte destas diferenças são culturais e sociais mais do determinadas por algum fator natural.
Embora comumente mencionados pelo senso comum, os padrões “animais” de comportamento masculino e feminino nos mamíferos não tem nenhuma base científica para o ser humano. Não por alguma questão moral ou religiosa, mas até pelas explicações biológicas e zoológicas sérias – e dentre todas destaco o excelente livro, clássico na década de 70, “O Macaco Nú”, de Desmond Morris – que ao invés de buscar meras analogias convenientes buscam comparar e explicar algumas ações segundo regras realmente científicas.
Por exemplo, ainda que o senso comum geralmente associe a sexualidade a um comportamento animal, Morris destaca que para nenhum outro animal o sexo tem um papel tão central e relevante quanto tem para o ser humano. Para os animais o sexo é um acontecimento eventual, quase sempre anual salvo para os animais menores, relacionado à necessidade de sobrevivência da espécie. O mesmo motivo, afirma ele, faz com que o sexo tenha este aspecto central na vida humana – dada a necessidade de um forte laço – mas desligado do processo reprodutivo.
Paradoxalmente, na contra-mão do que dizem algumas religiões, agir como um animal seria praticar sexo apenas com finalidades reprodutivas, literalmente falando. Chega a ser curioso, na perspectiva ocidental, que uma religião vista como machista e moralista (no sentido estrito que o termo tem para nós) como o Islam tenha sido praticamente a única não só a sacralizar o sexo como também definir direitos muito específicos para as mulheres neste aspecto.
Morris também destaca algumas explicações zoológicas – ainda que seu estudo esteja um pouco desatualizado – para alguns comportamentos que tornam o homem um animal com características diferenciadas. Duas delas são bem relevantes, uma é a diluição das hierarquias e padrões de dominância, necessária à caça e coleta cooperativa necessária aos bandos proto-humanos O que em grande parte vem de certa feminização, inclusive do ponto de vista hormonal e a outra é justamente uma significativa redução das diferenças entre machos e fêmeasDiga-se de passagem que o orgasmo feminino é um privilégio humano sem similar em outros animais e que esta redução das diferenças vem em grande parte das dosagens de hormônio masculino nas fêmeas. Em parte alguns destes aspectos existem já nos bonobos, primatas mais próximos dos homens com os quais compartilhamos mais de 99,5% dos genesAinda que muitos estudos recentes tenham demonstrado que algumas dimensões “utópicas” dos bandos de bonobos construídas por estudos antropológicos tenham sido exageradas..
Não há, assim, nenhum embasamento mais sério que justifique as teses, muito difundidas em livros de auto-ajuda e revistas femininas, de alguma diferença fundamental e essencial entre homens e mulheresA rigor, fisiologicamente falando, um homem apenas com testoesterona teria a ejaculação precoce que caracteriza todos os demais machos mamíferos e uma mulher sem nenhuma dosagem de testoesterona seria frígida como as demais fêmeas mamíferas.. A separação dos dois mundos ocorreu ou muito antigamente – quando se imagina as divisões primitivas do trabalho e das esferas pública e privada – ou muito recentemente, quando se leva em conta a perda de relevância da família como estrutura socialCresce a cada ano, por exemplo, a proporção de mulheres que são chefes de família..
As diferenças vão crescendo – sob o estímulo do mercado, por sinal, para o qual quanto mais nichos e segmentos houver mais probabilidade de agregar valores haverá – estimuladas por certa necessidade de afirmação e pela imposição de valores grupais. Quase arrisco-me a dizer que há uma perenização do comportamento de uma determinada fase infantil na qual meninos e meninas vivem em mundos hostisE como a infantilização dos adolescentes vem avançando até as primeiras fases da vida adulta, por sinal, como já previa Huxley em Admirável Mundo Novo que é uma sociedade de adultos em eterna adolescência.
É neste contexto que os filmes de Almodóvar fazem uma curiosa reflexão sobre papéis e naturezas, às vezes confirmando-os, às vezes negando-os, muitas vezes brincando com o fato comumente ignorado pelas políticas sexistas de um lado ou outro de que também os homens estão sujeitos a um papel social, mas em todo caso sempre fazendo refletir sobre isto, mesmo que em certo sentido realmente “histérico” no sentido original do termo, ou seja, uterino, visto que ele se move em um mundo ao mesmo tempo essencialmente feminino mas também quase misógino, no qual as mulheres estão sempre a beira de um ataque de nervos.
