Real e ideal
“Entretanto, como é meu desejo escrever coisa útil para os que tiverem interesse. mais conveniente me pareceu buscar a verdade pelo fito das coisas, do que por aquilo que delas se venha a supor. E muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos e nunca tidos como verdadeiros. Tanta diferença existe entre o modo como se vive e como se deveria viver. que aquele que se preocupar com o que deveria ser feito em vez do que se faz. antes aprende a própria ruína do que a maneira de se conservar; e um homem que desejar fazer profissão de bondade, mui natural é que se arruíne entre tantos que são Perversos.” (Maquiavel, O Príncipe)
Tenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não somente a melhor, como a única que pode se arrogar, com boa justiça, do nome de república. Porque, em qualquer outra parte, aqueles que falam de interesse geral não cuidam senão de seu interesse pessoal; enquanto que lá, onde não se possui nada em particular, todo mundo se ocupa seriamente da causa pública, pois o bem particular realmente se confunde com o bem geral..(Thomas Morus, Utopia)
Quase sempre que me pedem alguma exposição sobre política começo citando estes dois textos, de Maquiavel e Morus, como início da conversa. Por algum motivo meio misterioso – não sei se biológico, cultural, social ou seja lá qual for – o pensamento humano é viciado em dicotomias, nesta mania de separar o mundo em duas metades distintas – nem sempre muito bem feita. Enxergar o mundo como antíteses tem o defeito de impedir ou limitar duas ouras formas de ver as coisas. De um lado impede que se verifique a possibilidade de um continuum (que numa verdadeira dicotomia seria impossível pelos termos serem mutuamente excludentes) e de outro impede a síntese que a cada momento pode contribuir para uma explicação mais precisa.
E uma das grandes dicotomias da política é que os praticamente contemporâneos Maquiavel e Morus já ensaiavam: a política como ela é a política como ela deveria ser. Mil argumentos podem ser traçadas a favor e contra cada uma das posições e no extremo as duas podem ser consideradas absolutamente detestáveis e inúteis. A primeira leva ao mais descarado cinismo oportunista e a segunda a intolerância quando bem sucedida ao mais estrondoso fracasso.
Acho particularmente mais perniciosa a segunda visão e às vezes alguns amigos ficam chocados quando considero o termo Utopia – tão querido no vocabulário político – como um termo extremamente negativo para mim. Particularmente considerei até a Utopia de Morus um lugar horrível para se viver, sem liberdade, sem privacidade, imbuído de uma profunda e extrema feição totalitária no mais preciso sentido do termo – de um Estado que regular toda a vida do cidadão.
Ainda que Morus seja chamado de humanista e normalmente se louve sua crença na bondade intríseca do ser humano, corrompida pelas más instituições, no fundo a sua visão do ser humano precisando ser acorrentado pelas “boas instituições” que lhe conduzem pelo bom caminho é, no fundo, uma visão muito pessimista do ser humano. Não é de se admirar que a história – matéria-prima dos dois pensadores para chegarem a conclusões opostas – demonstre que em geral quando aqueles que se guiam por uma visão focada apenas no ideal chegam ao poder em geral o fazem pelo método violento e é também por uma violência que não coraria Morus que lá se mantém,
Ao mesmo tempo é evidente que a Política desconectada daquilo que é o seu objetivo – promover a felicidade dos Cidadãos – através da construção de boas normas e instituições saudáveis sequer é merecedora do nome de Política, é apenas uma disputa meio animalesca por um poder que não é o poder político mas do mesmo tipo de poder que um animal obtém quando chega pela força ao domínio da matilha para ganhar o privilégio de ser o primeiro a fartar-se com as presas.
Do ponto de vista cotidiano a análise de Maquiavel centrada na compreensão da realidade e seus mecanismos de funcionamento é certamente mais útil até àqueles que tem um ideal verdadeiro. O próprio Maquiavel, a despeito de quantos adjetivos derivem de seu nome, tinha uma visão republicana, uma compreensão de Democracia bastante avançada para sua época e claras noções sobre perigos e vantagens do domínio seja dos príncipes seja dos nobres sobre o povo. Em certo sentido chega a ser radical na medida em que considera não só que o povo pode se enganar em questões específicas mas não em questões gerais e que tinha o direito de rebelar-se para não ser dominado, noções hoje muito ausentes em muito discurso que se intitula de democrático.
Toda antítese resolve-se por um paradoxo e esta não é diferente, A visão “maquiavélica” é muito mais útil àquele que busca o ideal, na verdade praticamente só é útil a ele porque na medida em que ele tem uma noção bem objetiva e clara de finalidade, objetivo, meta e conclusão só ele tem plena capacidade de dentro das regras do jogo chegar ao objetivo. O inverso sendo também verdadeiro – e cada vez mais verdadeiro – pois aos que desejam manter ou ganhar ou poder apenas por objetivos pessoais tem muito mais facilidade não só de passar por cima das regras do jogo como ainda de revestir-se de alguma autoridade ideológica, filosófica ou social para prevenir e reprimir qualquer oposição.
No centro da solução do paradoxo está o ponto que distingue os dois – Maquiavel enxerga a diversidade, a multiplicidade de interesses em conflito; Morus vê um único caminho o qual deve ser atingido a qualquer custo. Não é à toa que em suas vidas Maquiavel seja um revolucionário radical frustrado e exilado que tenta a todo custo voltar a ser um “player” enquanto Morus é um alto conselheiro de uma potência em ascensão que abandona o jogo.
