Uma Utopia Imbecil
Bom, dia de jogo do Brasil então ninguém deve mesmo ler este post hoje, mas quem sabe um outro dia o post será lido, então escrevo por conta do exercício
Não me agradam as Utopias, salvo como exercícios abstratos, porque elas são sobretudo a noção de que a vontade de um deve se sobrepor a de todos os demais e sacrificar todo o resto à manutenção de uma estabilidade impossível. Prefiro as distopias, que mostram como estes projetos sempre tendem a se tornar terríveis.
Para não ser injusto com Platão, Morus, Campanella e outros teria de dizer que nem sempre eles tem culpa das leituras que fizeram de suas obras, mas daí a discussão seria longa demais. Quem sabe fica pra outro dia. Perdoem-me, então, aqueles que compreendem os outros sentidos destas utopias.
Uma única utopia me agradou muito, a despeito de toda a simplicidade, quase rudeza, de propor coisas, como a supressão do trabalho intelectual, que na boca de qualquer outro soaria como uma coisa absurda, mas que no contexto da história faz sentido. Refiro-me à História de Ivan, o Imbecil, de Tolstói, que já citei a semana passada.
Não vou entrar nos detalhes da história, porque é um conto curto e espero que posam ler. Procurei pra ver se encontrava um link com a história em português mas infelizmente não encontrei. Só para situar o leitor no raciocínio, três irmãos tornam-se czares, um comerciante, um soldado e um imbecil. O Diabo, irritado com a harmonia que reina entre eles, sobretudo por causa do imbecil, primeiro tenta desuni-los confiando a missão a três diabos jovens, não só isto não tem efeito como é justamente por conta disto que eles se tornam czares.
Assumindo a tarefa ele próprio, consegue fazer com que os dois irmãos percam seus reinos. Mas quando chega ao reino de Ivan, que já havia deixado o palácio, abandonado as insígnias do cargo e retomado seu trabalho como camponês, fazendo com que todas as pessoas sensatas abandonassem o país, ficando nele apenas os imbecis. Talvez por isto a nação prosperasse, não com ouro, mas com vastos suprimentos de comida e trabalho para todos, cada um cuidando de sua vida e lá ninguém passava fome desde que trabalhasse ou pedisse um prato de comida pelo amor de Deus.
A simplicidade do raciocínio dos imbecis deixa transtornada a lógica sutil do Diabo, que vê cada um de seus planos para destruir o reino de Ivan ir por água abaixo a cada discussão com algum de seus cidadãos. Quando um exército estrangeiro invade, por instigação do Diabo, o reino Ivan e todos os imbecis dizem aos soldados que se eles estão passando dificuldades em sua terra que venham viver na fartura com eles em suas terras ou levem aquilo que precisarem. Com o tempo nem sob ameaça de corte marcial e execução os soldados conseguem mais continuar a destruição e pedem para ser levados dali, não sem que antes muitos deles desertem e fiquem vivendo com os imbecis.
Quando tenta utilizar o dinheiro para destruir o reino também as especulações do Diabo são mal sucedidas, porque tirando as crianças que acham que o ouro brilhante é um excelente brinquedo – cena similar á Utopia de Morus – ninguém se interessa por ele. Confrontado pelo dilema impossível de trabalhar ou pedir pelo amor de Deus para ganhar um prato de comida o Diabo morre de fome na terra dos imbecis.
A grande diferença entre esta Utopia de Tolstoi e outras tantas que há é que o mestre russo concentrou-se na mudança do homem, através de Deus, ao invés de apostar como tantos outros em alguma legislação mágica, instituições maravilhosas, salvaguardas infalíveis. Os cidadãos são imbecis porque são uma tábula rasa, livre de qualquer conceito ou preconceito, onde a vontade de Deus pode ser escrita, tal como um dos títulos do profeta do Islam é o de “profeta dos iletrados”.
Certamente haverá quem diga que esta utopia de Tolstoi é mais difícil de ser realizada que qualquer uma das outras, afirmação que deve realmente ser verdadeira. Mas diria também que é a única realmente possível e capaz de funcionar.
Quase horário do jogo, sozinho aqui escrevendo um post que nem sei se será lido (hoje com certeza não será), estou me sentindo um imbecil, graças a Deus.
PS: acabei dando continuidade a este post:
http://www.poderdapalavra.com.br/portal/religiao/aprendiz_de_imbecil
